O Mercador de São Paulo

As manhãs claras que penetravam por entre as frestas das janelas, sujas pelos milhares de pombos que ali observavam os homens trabalhadores, traziam alguns ares puros ao ambiente. Oclusiva e oculta para os detalhes gerais do edifício, famoso e espaçoso para os negócios vindos de outras regiões do estado, a atmosfera que pairava naquele lugar era certamente especial. Certamente, digo, pois suas redondezas cercadas por ruas sujas e esburacadas, rios imundos e já desprezíveis, transformavam este mercado em um oásis único. Estruturado no começo do século XX, rodeado por vitrais russos de belezas longínquas, próprio de nosso vício de importação, aquele mercado de São Paulo, chamado comumente de Mercadão, iluminava em musgo as cúpulas pontiagudas que rasgavam as baixas nuvens, protegendo o homem de ser devorado pela natureza. E, abaixo desses seios altivos, arcos quase renascentistas decoravam com luz as trevas que ali no interior residiam, o que permitia um certo conforto aos negócios, dado que seu poder atrativo estava para o olfato e o paladar e não exatamente para a visão. De fato os cheiros dos produtos, alguns bem exóticos, agradavam o cliente transitório e, às vezes, a atração era tão forte que até os concorrentes deixavam de lado sua competitividade para experimentar um pouco daquele estranho sabor.

Os negócios andavam medianamente ali entre os frios e os açougues, em sua hecatombe plenamente financiada. Em minha loja nós vendíamos, muitas vezes, sementes e ervas para chás, provindas de regiões asiáticas, de solos cultivados por desconhecidos velhacos e crianças. É claro que as sementes eram populares entre os clientes brancos europeus, e frequentemente podíamos vender quilos e quilos de chás para os mesmos orientais; irônico, como pode ver, mas os negócios não poderiam se deixar afetar por tais curiosidades que a vida na cidade nos proporciona.

Nossa loja se inundava com os cheiros dos animais mortos, dos nojentos açougueiros que riam sobre os resultados do futebol da semana passada, sobre as cabeças que faziam caretas ali para os que escolhiam a carne com apreço – um esteticismo quase sádico. Estes poderíamos dizer que faziam parte daqueles portugueses que metodicamente conseguiram salvar Portugal de sua falência inevitável, através do negócio ultramarino. Era como se a colônia se invertesse e o feitiço, recheado de poderes ocultos da conquista não planejada, inundasse o Rio Tejo com as águas do Rio Tamanduateí. Pois como já era sabido, as voltas, as muitas voltas que este rio, frontal ao Mercadão, dava pelo oceano de prédios e prédios, chegava sem aviso além do Atlântico, impedindo o Rio Tejo de ir-se para o Mundo e chegar à América.

Do outro lado, lado esquerdo de quem vem, estavam os judeus tradicionais, aqueles que mantinham o poder dos negócios imanente com a palavra da venda, distribuindo conhecimentos que provinham de gerações milenares. Pouco tenho a dizer sobre esses comerciantes além de ver, às vezes, com certa curiosidade de estrangeirismo, seus quipás decorados de espécies exóticas provindas do Oriente Médio. Sua simpatia para com os clientes e vizinhos vendedores era famosa, tão famosa quanto sua misteriosa opinião sobre as questões mais importantes da vida. Parecia que havia algo ali em seu interior, do chefe da família, algo que gostaria de transbordar, como Schulz em sua heresia, mas era impedido pelos compromissos mercantis, pela demanda do comércio, pelos clientes ávidos por produtos heterogêneos, pelo seu papel sempre imputado pelos que o rodeavam.

À nossa frente estavam os nordestinos, com seus produtos típicos das regiões nortenhas do Brasil, fartos em quantidade e em variedades para o paladar. Doces duros, açucarados demasiadamente para o meu gosto, deixavam suas mercadorias com fortes cheiros de regionalismo. Edelson era o seu maior representante ali. Sua fala era estranha, mais estranha que a dos judeus que pregavam com seu hebraico quase bíblico, dando-me uma certa dificuldade em compreender aquele português inexistente para os paulistanos. Tanto tempo já moravam na nossa cidade, mas algo os remontava sempre para o seu solo seco, para suas condições precárias que geraram a Grande Migração do século XX. Alguns os respeitavam com apelidos carinhosos, tão preconceituosos quanto minha visão sobre a duvidosa receita de suas misturas de carnes e temperos. Mas não se preocupem, pois poucas de minhas opiniões eram faladas diretamente a essa variação tão grande de pessoas que nos cercavam.

Nós éramos os descendentes de italianos, aqueles que, com suas mãos sujas de negras fuligens das fábricas exploratórias do final do século XIX e começo do século XX, construíram alguns bairros típicos e festas alimentares em São Paulo, nos identificando rapidamente com a condição de ser brasileiro. Alguns de nós seguíamos a tradição da degustação de pastas e dos negócios ilícitos que tão tradicionalmente passou de geração em geração nos sangues dos genoveses, piemonteses, venezianos, mercadores de todas as partes daquela bota desgastada. O nome familiar era típico, sem nenhum léxico especial ou neologismo, nos relacionando com os muitos genoveses que fugiam de sua condição miserável: Veroni. Comumente os que liam os relatos dos antigos imigrantes, em seus diários sujos com suas gramáticas populares, viam que ali também possuíam simplicidades de relatos, racismos inseridos em pequenos comentários sutis, tão sutis que pareciam apenas ironias, somente piadas sem nenhum senso crítico e ideológico. E não se enganem com tais relatos, quando pequenos comentários são capazes de criar sementes nas opiniões, tanto quanto os que pregavam a igualdade das diferenças, mas se recusavam em chamar um homem negro ou pardo em sua casa.

Veja, a situação temporal de um relato costuma se relacionar com algum acontecimento importante, cheio de reconhecimento e morte, uma narração tão tradicional quanto aquela de três mil anos atrás, quando um cego grego nos relatou troianos perecendo por falhas de caráter. E para não criar uma antipatia desnecessária com o leitor consumista, ávido por imagens sexuais e violentas dispostos em fatos narrativos, como aqueles Então, a mulher amou o homem como nunca amou antes ou Ele ficou feliz por todos estarem de mãos dadas, com a humanidade unida para sempre, constrangedor para a seriedade que estamos buscando, irei proceder exatamente ao gosto popular. Talvez consiga um número suficiente de leitores para, assim, transmitir as peripécias que ocorrem nas negociações ali no mercado tradicional.

Poderíamos dizer que era uma manhã, se bem que quando o Sol despontava ali pelas redondezas do centro da metrópole era difícil dizer pelo calor escaldante que nos acometia na hora da venda; a atmosfera abafada parecia pertencer ao ambiente matutino. Mas escolhemos a manhã para contar nosso relato por uma certa arbitrariedade do poder narrativo, mesmo que fosse proibido dizer os segredos do mago narrador atrás de seu escrito distante. Possuíamos muitos clientes pelos corredores, pombas e alguns insetos insignificantes rodeavam o sistema circular do Mercadão, e com rostos sérios nós trazíamos como podíamos o consumo de nossos produtos. Ouvi alguns boatos de César Alves, o português açougueiro ali ao lado, de que um mistério brotava dentro da loja do velho Sr. Ruiz, um espanhol conservador exilado no Brasil que, de uma maneira bem estranha que nós não entendíamos muito bem, apoiava incondicionalmente o governo de Franco, dizendo palavrões sobre a volta da monarquia vigente na atualidade; culpava o protestantismo pela decadência econômica no ocidente.

O boato, para não confundir o leitor, será transmitido em partes, mas corrigindo os devidos erros gramaticais, próprios da fala natural, Venha aqui, Fernando Veroni (eu, naturalmente), venha aqui rapidinho, Ouviu sobre o que aconteceu no fim de semana passado na tenda do Sr. Ruiz? Eu ouvi de um amigo de um amigo meu que sua esposa desapareceu do dia para noite, Não exatamente, mas assim ele me disse entusiasmado pelo suspense, Ele disse que eles andavam brigando, andavam discutindo na parte de trás da loja, sobre os problemas financeiros que o custo de vida paulistano causava a algumas famílias, sabe como que é (…), O pai da mulher, um coronel nordestino, possuía uma grande quantia de dinheiro (…), Aí algum plano de tomar esse dinheiro através da herança fazia parte dos planos do espanhol, Sabe como são esses espanhóis franquistas, não dá para confiar, com certeza não, sabe como é, não é Veroni?

Risível sua fala, não há dúvida, mas aquele discurso com sotaque encantador dos lusitanos me deixou curioso sobre esse novo fato que surgia para os detetives animalescos do mercado. Após atender dois clientes, vendendo uma quantia até aceitável, o que sempre deixava meu pai orgulhoso por minhas habilidades retóricas e sofísticas na venda, olhei entre as frestas dos produtos pendurados, quase em todas as tendas ali em volta, Sr. Ruiz em frente às suas mercadorias. O salame revelava e cobria, em seu pêndulo infinito, os olhos do Sr. Ruiz, concentrados e frios diante dos passantes pelo corredor. Estes nem percebiam o penetrante julgamento que aquele, um velho baixinho e barbudo, imputava a tudo e a todos. Mas se eu estabelecesse meu veredito final apenas pelo caráter que os olhos pareciam implicar, metade deste mercado, clientes e vendedores, com certeza sairiam presos pela minha polícia particular. Porém algo ainda me deixava inquieto: sua aliança não estava mais em sua mão. Divórcio seria a mais lógica explicação, mas se víssemos bem de perto com uma lupa, somente possível pela desestruturação do realismo viciante dos leitores passageiros, um corte transversal faria surgir um X, entre a marca da aliança deixada pelo sol.

Fui em direção à tenda do Sr. Kleinbeker, meu vizinho judeu, para extrair daquele coração de filho de Abraão algumas pistas para a morte da Sra. Ruiz, desesperançado pelo já conhecido caráter do senhor quarentão, comerciante especialista, profundo em algo que eu não sabia. Sua calma fala me permitiu também transcrever aqui o relato, embora algumas digressões, um pouco entediantes, me permitisse excluir metade de seu discurso.

O diálogo, ao que se segue, Bom, em que posso lhe servir, Sr. Veroni? – Disse Kleinbeker com seu sorriso sempre carismático – Temos alguns pãezinhos que saíram agora do forno, (…) se quiser mando meu filho buscar e empacotar uns três ou quatro para você, que tal? (…) Como está a família? – Respondi que não havia problemas na minha tenda e que meu objetivo compunha de razões maiores naquele momento que simples pães caseiros, – Dessa vez eu vim por outra razão, Sr. Kleinbeker, Você soube de algo da tenda do espanhol Ruiz ultimamente? É porque eu tenho notado uma tensão sempre constante nas últimas semanas, e você está vendo que sua mulher não está ali com ele? Não vim aqui para fofocar e especular sobre a vida alheia, mas tenho uma certa preocupação pela reputação deste mercado, por razões óbvias, pois sabe como é aqui na cidade, basta um simples deslize e todos criticam excitados pelo erro do outro, -O Sr. Kleinbeker concordou com minha asserção, mantendo uma sempre viva atenção à qualidade visual e externa que os clientes deveriam ter daquela configuração empreendedora. Isso o deixou atento, embora um pouco melancólico em seu olhar para o Sr. Ruiz -Pois bem, Sr. Veroni, mesmo não ouvindo nada a respeito, e isso muito bem pode ser uma loucura típica do César, mas se existe algo desse tipo ficarei de olho, tudo bem? – Amavelmente tocou minha mão –Muito bem, obrigado Sr. Kleinbeker por sua atenção e por tentar proteger nosso ambiente, é bom ver pessoas como você se juntando a nós e formar uma união, o senhor sabe o que falta é a união, e se eu puder retribuir com alguma coisa a sua energia disposta nessa, digamos, empreitada… -Bom, dinheiro eu não aceito, Fernando, mas alguns daqueles pacotes de ervas vindas da China talvez seja o suficiente, -Ah sim, mas é claro, trarei para você imediatamente, – Forcei o sorriso – enquanto isso fique de olho, que irei sutilmente me acercar da tenda do Sr. Ruiz, – Entreguei o pacote de ervas e me fui, afastando de mim uma missão cumprida.

Quando o Sr. Veroni me entregou o pacote fiquei pensando seriamente no “pessoas como você”, matutando obsessivamente no que aquele pequeno pedaço de frase implicava em todo seu discurso detetivesco que ele tanto colocava fé. Acredito que se a história permitisse e os tempos voltassem, como voltam os trens e os ônibus ao seu lugar de origem, meu caro vizinho de negócios, Fernando Veroni, seria definitivamente um espirituoso antissemita. O que me deixa de certa maneira contente por não ser possível, aqui nesta cidade, odiar realmente um judeu, como possivelmente se odiava antigamente em outros lugares, mas, por outro lado, um pouco apreensivo por, mesmo sem este tal antissemitismo explícito, existir sempre algo adormecido em qualquer parte do mundo, esperando apenas uma oportunidade para “aplicar a teoria na prática”. Triste por esse pensamento, Sr. Kleinbeker voltou a sua loja, arrumando suas estantes e as garrafas de vinho espalhadas pelas caixas recém-chegadas, pensando se ele realmente pertencia a “pessoas como você” e sussurrando algumas suposições de como, de alguma maneira, essa moral de descendentes de italianos poderia ter trazido o atraso para São Paulo.

Enquanto me aproximava da tenda do Sr. Ruiz, receoso, mas excitado por desviar um pouco das obrigações típicas de um mercador, me lembrei das histórias que meu pai costumava me contar. Como muitas que ele me contava, estas eram cheias de aventuras, animais, macacos falantes, deuses indianos, misticismo hindu, todos os objetos exóticos adorados por esse homem, digamos, rechonchudo. Uma dessas histórias, de um épico poema antigo, mesmo antes de existir o mundo Ocidental, conta as aventuras de um virtuoso príncipe que, isolando-se por catorze anos em uma floresta com sua mulher, a vê sendo raptada e carregada a um reino distante por um rei de outra raça, um rei malvado, para o outro lado do oceano. Com um aliado ao seu lado vemos, então, a busca e a luta interminável deste príncipe, humano e divino, contra os maléficos inimigos para reconquistar uma princesa que deveria ser sua. Embora as imagens de todas as peripécias deste príncipe na região da floresta, no reino dos macacos, na sua luta contra os demônios mais aterradores, sempre me deixavam fascinado, algo me intrigava muito mais do que qualquer cena entre os cantos. Ali, enquanto meu pai contava com tanto ardor essa história, via que o próprio poeta aparecia como um personagem, logo no início da história, ouvindo de outros dois a declamação do canto antes do próprio canto do autor. Era como se esse narrador primeiro ouvisse a história do príncipe na voz de outra pessoa para, depois, poder contar com seu próprio canto esse personagem mítico. Isso deixava a história sempre viva, montando uma tradição, construindo uma continuação interminável para manter aqueles mitos sempre existentes na mente de todos os habitantes daquele povo. Então, imaginei como seriam, ali entre os corredores do Mercadão, rodeados por pombas e clientes voadores, meus passos ansiosos contados por outro narrador, por outra voz, antes mesmo que meu próprio canto pudesse relatar aquele momento vital na narrativa.

Homem de boas conquistas e virtuoso comerciante, que muitas vezes vendeu suas especiarias para os clientes estrangeiros, exitosos em suas compras, Fernando Veroni, caminhando entre o solo do comércio, que tantas vezes reinou sua economia sobre os outros mercados poderosos de São Paulo. É sabido que sua habilidade retórica costumava atrair os clientes do mercado, pois esses tais clientes eram levados apenas pela palavra, porém, na realidade, nossa história se passa entre um assassinato que ocorreu ali na vizinhança, cometido por um espanhol exilado, e isso o deixava satisfeito. Logo, víamos nosso caro Fernando olhando para o Sr. Ruiz, nosso espanhol da história, com pressa em saber se sua mulher havia morrido definitivamente. Não sabia ao certo se o crime era real, mas obcecado pelo discurso de César Alves, português varão e habilidoso em suas ferramentas, continuou sua empresa com ardor, o que não era pouca coisa. Andava lentamente, cada vez mais hesitante, em direção àquele leão distraído, um personagem famoso, para tentar iniciar um diálogo investigativo. Como não era amigo do Sr. Ruiz, o que fazia o início da conversa cada vez mais difícil, normal para os paulistanos que não se conhecem inteiramente, não pôde dizer nem um Olá ou um Tudo bem?, palavras conhecidas para todos ali naquele povo. Depois, puxado pelo olhar do espanhol, que de repente se voltou a Veroni, não conseguiu impedir que aquele embate e o mistério deixasse adormecer para sempre; para sempre, digo, pois Fernando só tinha aquela oportunidade, e existem homens que a jogam fora somente por preguiça ou por falta de confiança em suas palavras.

Sr. Ruiz o chamou ali, que estava bem próximo e chamava a atenção por sua dissimulação, e disse, Olá, caro Veroni, o que faz o senhor por aqui, está devendo algo ou veio para fazer aquelas trocas injustas de seu pai? sabe o que ele me fez há alguns anos atrás, trocando ervas por queijo! Minha culpa, minha culpa, Vamos! diga, pode dizer o que você quer, – Seu bigode se movia rapidamente e Fernando, com coragem naquele momento, embora novamente hesitante, respondeu sua invectiva – Não, Sr. Ruiz, hoje eu não trouxe nenhuma erva para trocar, mas… – pensou rapidamente o nosso aventureiro idílico – vim para comprar algo, com dinheiro e tudo, sem nenhuma relação pastoril de troca de objetos, – O olhar do espanhol se fechou e sua cara se fez hostil – Sabia que lá onde eu morava os moradores somente trocavam seus produtos com outros produtos? – Disse o Sr. Ruiz – Só porque aqui em São Paulo o mundo parece funcionar com cédulas e papéis e os objetos realmente não possuem nenhum valor não quer dizer que eu seja obrigado a aceitar o seu dinheiro, O que eu quero é uma troca justa, não ervas, essas ervas podres de seu pai, eu quero um pouco de chá, ervas de chá!, me dê um pacote de chá e te darei esse seu algo que você quer aí, vai, responda – Essa última frase se deu pelo fato de Fernando Veroni ver, com seus olhos de falcão, virtuoso em seu olhar, o vestido da Sra. Ruiz, jogado no chão ali na porta do banheiro, nos fundos da tenda, e o que víamos era uma mancha vermelha, deixando Veroni paralisado – Não… bom, talvez, quer dizer – retornou ao seu rosto habitual e tomou novamente o controle do diálogo – Vamos ver, vamos ver, mas – Fernando teve uma brilhante ideia – Bom, Sr. Ruiz, eu ainda confio que um símbolo de troca seja ainda a melhor forma para adquirir certos objetos, você sabe que uma vaca e uma nota de 10 realmente significam a mesma coisa, absolutamente a mesma coisa, Mas, sim, aceito trocar meus chás, mas não por vinhos, como você costuma trocar por aqui com seus vizinhos, nada líquido entra na minha tenda, quero seus queijos lá conservados em seu depósito, porque já ouvi falar, alguém me disse, eu lembro, que seus melhores queijos ficam ali, escondidos para clientes especiais, Claro que eu trocarei por uma boa quantidade de chás, como acontece naturalmente na troca de produtos com valores mais altos, embora conheça pessoas aqui que valem menos do que dizem – Sorri forçadamente, criando uma aura simpática para penetrar ali no fundo da tenda, desvelando, assim, o segredo do assassinato da Sra. Ruiz – Mas… – Senti uma hesitação na voz de Ruiz – primeiro, traga aqui os sacos de chá, peça ajuda para Edelson, aquele nordestino, já ouvi que essas pessoas gostam de carregar peso, assim deixem aqui na porta e imediatamente irei buscar um bom pedaço de queijo para você.

Esperei então o Sr. Ruiz se afastar de mim enquanto olhava fixamente para aquela figura de um vestido vazio, com manchas vermelhas, postado como uma prova de um crime ainda não provado. O que restava era falar com Edelson, o vendedor de doces nordestinos, tentar convencê-lo a participar do meu plano e, assim, trazer a real justiça que há tanto tempo esse mercado esperava conquistar após tantos anos de vitimicidade. É claro que não éramos vítimas efetivamente falando, pois também podíamos construir um belo monopólio nos preços e explorar os clientes como bons burgueses do século XIX. Mas até nós, os comerciantes, temos o direito de sofrer com as estruturas sociais e as injustiças que o destino, muitas vezes moldado pela natureza humana, pode massacrar o trabalhador disciplinar. E víamos ali Fernando Veroni buscando um grande pacote de chá, provindo daquele Oriente já dito no começo da história, embora naquele momento pudéssemos ver algo ambíguo, o que não ficava claro se o que Fernando dizia era realmente um comentário preconceituoso seu ou uma objetiva constatação de um narrador que quer somente acender aquele prazer fácil e barato do leitor ávido por algo novo, mesmo que esse novo pareça algo enlatado, algo de fácil digestão. Em princípio a partir dessas duas hipóteses poderíamos facilmente diminuir a capacidade da visão de Veroni, mas, creia-me, existe alma até mesmo nos mais viciosos hábitos.

Eis que cheguei à tenda de Edelson, o nordestino, para pedir uma ajuda no carregamento do pacote. Não relato aqui o diálogo que nós trocamos, pois é claro que qualquer discurso direto, necessariamente uma paráfrase escondida entre uma voz não existente, seria embebido de uma ideologia tão sólida e escondida ali no interior da consciência de todos os paulistanos que muitos sentiriam uma espécie de incômodo interior; curioso, sim, pois essas mesmas pessoas virariam suas costas e diriam algum comentário espirituoso sobre essas pessoas daquela região. Mas posso dizer que ele me ajudou rapidamente e pediu pouco como recompensa, o que não me deixou surpreso, pois muitas vezes estes faziam os trabalhos mais árduos sem o menor pingo de má vontade, indicando, claro, uma submissão insuportável para mim. Com seus dedos pardos, carregou até a tenda do Sr. Ruiz, que não estando lá naquele momento, por alguns compromissos que agora desconhecia, percebi que agora era o melhor momento para revelar tudo, de desvelar a cortina por trás do crime. Chamei Edelson para me acompanhar e atravessar, entre salames e vinhos, entre queijos baratos e sementes de diversas regiões, a atmosfera tão recheada de mercadorias ricas que até mesmo o mais insensível nariz poderia ser seduzido pelo toque nos sentidos.

Entre a travessia podíamos sentir um ar tenso pressionando nossos pulmões, adentrando, com as exóticas essências, em nossas expectativas diante do mistério. A cada passo, me dizia Edelson, algo atraía o detetive ao objeto a ser investigado, uma conveniência das coisas que resolvem conviver em um mesmo espaço, eliminando, assim, toda a ruptura entre coisa e sentido. Considerei sábio o pensamento, embora pouco conhecesse da essência das coisas, a não ser do seu valor como coisa utilizada, coisa ferramenta, coisa-feita-para. O silêncio tomou conta da tenda. Era como se as paredes, que não completavam um quadrado isolado, cerrassem todos os sons possíveis dos clientes passantes por ali, causando um leve arrepio em nossa espinha enquanto víamos uma porta que ia e vinha, levado por alguma criatura que ali agitava os ânimos dos pobres detetives. Mas como podíamos abrir aquele lugar e ver um corpo estirado, corpo esfaqueado ou baleado, e imediatamente poder agir de maneira racional? Edelson, tranquilo em sua resposta, me disse que seria relativamente fácil, pois as notícias dos jornais, todo o investimento estético para mostrar informações sobre assassinatos de todos os tipos faria com que suportássemos mais a visão de um corpo sem alma, mesmo com um medo tipicamente humano de perder a razão por uma simples olhadela à Sodoma.

Vivíamos à sombra da possível aparição do Sr. Ruiz, que a qualquer momento poderia se vingar e esconder as futuras testemunhas que agora iriam abrir aquela porta. Ergui o braço, olhei para os lados, Edelson agora, meu escudeiro, tentou segurar meus dedos, mas agora estavam pesados, paralisados pelo objetivo sedutor para desvelar a morte da Sra. Ruiz. Quando abri a porta pude ver uma escuridão, sem silhuetas ou figuras humanas visíveis, e tudo parecia calmo. Mas bastou somente um segundo para que houvesse um grito abafado, vindo dos fundos do armazém para que pudéssemos afirmar algo, afirmar que agora havia uma vítima, Sra. Ruiz, não morta possivelmente, ou outra nova vítima, um personagem desconhecido, ainda não apresentado, esperando seu fim fatídico diante das facas do espanhol. Um pedaço de madeira me atingiu nas costas e Edelson, ali estirado no chão com os olhos embebidos em sangue, tentava de todas as formas presenciar aquele fato, os movimentos dos braços, os olhares odiosos, o pescoço ferido, a mescla entre o odor dos assassinatos de testemunhas inocentes, agora vítimas de um novo mercado. O que veio depois, Veroni não pôde presenciar.

Na noite daquele mesmo dia a polícia foi chamada. A seguir, temos a investigação do mistério feito por uma instituição autenticada pelo Estado, deixando, assim, certas hipóteses mais aceitáveis para a sociedade. São três testemunhas que deram seus depoimentos ao chefe da investigação, além da conclusão do próprio chefe em relação ao desfecho do mistério que ocorreu entre Fernando Veroni, Sr. Ruiz e a Sra. Ruiz. Segue-se o relatório final, após o fechamento da investigação, embora não houvesse realmente um culpado, o que não importava muito aos policiais e aos mercadores, mas que deixava os leitores daquele relatório ansiosos por mais e mais.

O primeiro a depor foi o português César Alves, – Ouvi de um feirante que vendia lanches de mortadela, famoso, sim, aqui no Mercadão, que o Sr. Ruiz, um mercador espanhol bem bravo e bem fechado em relação à comunidade que tínhamos lá, havia matado sua mulher com facas ou tiros; só sei que foram muitas facadas ou muitos tiros, Isso segundo meu amigo, Seu nome? Roberto Ignácio López, curioso, sim, porque este também era descendente de espanhóis, mas não tinha nada que ver com a família Ruiz, franquistas de nascença, é o que eu ouvi dizer, Pois bem, após ter ouvido sobre este possível assassinato, logo fiquei pensando nos desastres e no perigo que os clientes sofriam diante desse desconhecido possível homicida, Mas, por falta de provas, nada pude fazer a não ser estabelecer uma conversa com alguns dos mercadores vizinhos, para tentar chegar a uma saída para aquele conflito que se estabelecia, Sim, estava sol, havia muitas pombas e alguns clientes, mas só, nada demais ou fora do normal, somente o olhar um pouco ansioso do Sr. Ruiz, Isso percebeu também Fernando Veroni, então contei sobre o que eu tinha escutado de Roberto, mas não sabia, juro que não sabia o que iria acontecer, Ora, parecia que seria apenas um comentário entre amigos, nada além disso, sabe como essas pessoas não acreditam no que falam os portugueses, nem mesmo você agora está totalmente seguro da autenticidade do meu depoimento, Pois bem, após ter saído da minha loja e se movimentado de lá pra cá, entre a loja do judeu e a loja do nordestino para depois chegar à tenda do Sr. Ruiz, é que comecei a ficar desconfiado de algo, Mas somente vi depois Fernando levando, com Edelson, o nordestino, um saco de chás à porta do espanhol, que não estava ali naquele momento, Algo ocorreu! sim, Edelson caiu atingido por algum objeto e duas pessoas brigaram feio, espalhando todos os produtos no corredor do Mercadão, deixando as pessoas horrorizadas pela cena, mesmo acostumadas com o dia rotineiro de São Paulo, Só sei que apareceu uma mulher, acho que era a Sra. Ruiz, mas ela tinha uma mancha em seu vestido, uma mancha bem vermelha, sabe, e gritava, Podia ser algum cliente, não sei, muitas pessoas se reuniram ali e envolveram a cena da briga com curiosidades exaltadas, O corpo retirado dali, do Sr. Ruiz, atingido por um pedaço de madeira me deixou chocado, pois nunca pensei que Fernando Veroni seria capaz de realizar um ato tão horrendo, mesmo ele sendo um homem bem ganancioso e egoísta, E quem não é, não é verdade, meu amigo investigador, até você, não é mesmo, se tornou chefe graças à ganância? sem a ganância todos estariam vivendo em um país atrasado, repito, atrasado, – Aqui termina o depoimento de César Alves, embora sua visão do incidente não fosse uma das melhores, com certeza ajudou em uma boa parcela de nossa investigação. A seguir temos a do Sr. Kleinbeker, homem judeu de meia-idade.

Ele tossiu levemente e depois começou a falar de maneira tranquila, – Sabe, vou lhe contar exatamente o que eu achava de Fernando Veroni, Embora ele fosse um rapaz simpático, até dedicado ao seu ofício, ele possuía um olhar um pouco maldoso para as coisas, Coisas? sabe, das ações dos outros, como elas se comportam, qual origem étnica elas pertencem, todo um vício de caráter, Não que eu não tenha também, é claro, todos nós temos, até você, não é mesmo investigador? pois bem, estava eu lendo meu livro e sentindo a passagem demorada dos clientes que olham as lojas parecendo múmias vivas atraídas pelo cheiro de suas relíquias, quando chegou o italianinho sorridente, falso, creio eu, mas me cumprimentou com a mão bem estendida, dizendo palavras sobre o Sr. Ruiz, sobre a morte da mulher e tudo mais, percebi que ali havia alguma intenção, E, embora eu tenha concordado em observar a tenda do Sr. Ruiz e a ação de Fernando Veroni, mesmo eu não aceitando sua bisbilhotice, realmente aquilo tudo me parecia estúpido, Estúpido porque um mercador não pode, por lei, ser investigador, Não lei de papel, aquela que ninguém segue, mas uma lei própria dos comerciantes, Veja, um mercador precisa vender e necessita um número máximo de pessoas possíveis, óbvio, para que seu lucro possa render seus gastos diários, Há a ambição também, a monopolização e o poder da compra dos clientes, são apenas observações básicas, Mas, tendo isto em conta, um mercador não pode necessariamente possuir nenhum tipo de preconceito, pelo menos não aparente, Ele pode odiar os negros, os judeus, os brancos, os índios, mas estes são apenas instrumentos mediadores nessa passagem da moeda de troca, E para que essa passagem seja efetiva é preciso tratar todos de maneira igual, Daí que vem a tolerância racial, não é? Você entende isso, não é investigador?, e para ser investigador é preciso possuir todo tipo de preconceito, é o que vocês chamam de intuição natural, não me leve a mal, mas creio que Veroni não pode ser investigador e comerciante ao mesmo tempo, um mercador não pode sair por aí acreditando nessa “intuição natural”, pois tudo o que ele conquistou com suas mercadorias seria destruído por uma simples resolução do mistério, Para nós, o mistério não importa, – Faltava mais um depoimento e, embora a conversa tenha sido interessante com o Sr. Kleinbeker, creio que não chegamos a um consenso em relação ao caráter vicioso do investigador e à falta de moral do comerciante. Creio que ambos fazem parte de uma ambiguidade da semântica ou talvez da própria modernidade. A próxima testemunha que meu parceiro trouxe foi o nordestino Edelson, o homem que ajudou Fernando Veroni a carregar o pacote de chás até a tenda do Sr. Ruiz, se tornando uma testemunha possivelmente ocular. Vamos ao relato.

Edelson se senta no canto da sala, mas começa a falar agitadamente, embora sua concentração estivesse bem fixa na história, – Não sei, não lembro muito bem, sei que recebi uma pancada, pela dor que senti na manhã seguinte, Mas não vi Veroni, não sei o que houve, pois não me dizem nada, Fui apenas para ajudar a carregar um pacote de chás até a tenda do Sr. Ruiz, Depois não lembro muita coisa, você também, se estivesse em meu lugar, não se lembraria, não é, Sr. Detetive?, sabe que a investigação gera a tragédia, a história prova com louvor minha afirmação, Mas eu conheço uma anedota, ou parábola, depende do humor ou da religião do ouvinte, que eu gostaria que você ouvisse, A história começa em uma jangada no meio do oceano, um oceano sem fim, vasto, criado por Deus para castigar os homens viciosos que existiam antes da reunião das espécies na Arca de Noé, Havia nesta jangada cinco homens remanescentes do Dilúvio, cinco pecadores, que não conseguiam se comunicar entre si, A razão dessa não comunicação provinha de um passado bem anterior, lá no castigo da Torre de Babel, diferenciando a linguagem dos homens para toda eternidade…, ou ao contrário…, Um dia, navegando já por sete dias sem serem percebidos por Noé ou Deus, a pouca comida armazenada no barco já estava no fim e nada havia em volta para matar a sede ou a fome, nem terra nem água doce, somente peixes e sais, fazia com que nossos cinco homens fossem levados a um ultimato em sua final existência, Vários planos começaram a ser analisados, mas parecia que nenhum deles ia realmente os salvar de um julgamento inevitável, Porém, entre um desses últimos pecadores, havia um dotado de um grande talento, Desde seu nascimento ele soubera que em seu interior existia um dom inigualável, a capacidade de aprender qualquer língua em poucos dias, Portanto, somente nesses sete dias passados, esse homem já aprendera, pelo menos o básico, cada língua das quatro existentes na jangada, Somente ali, no momento final de desespero, o homem se apresentou e revelou seu dom misteriosamente guardado, conversando com cada um dos pecadores sobre o nome, a origem e o que deixaram para trás, O plano final, então, se apresentou da única maneira possível, Todos agora iriam contar sua história para esse rapaz talentoso, cada um em sua língua de origem, para que houvesse pelo menos uma pessoa capaz de repassar toda essa linhagem extinta, E, para que ele sobrevivesse, doariam seus corpos para salvá-lo da fome, Pois assim mesmo se deu, cada um dos quatro navegantes contou sua história e sua linhagem familiar, Todos estavam excitados por não serem mais esquecidos pela humanidade e louvaram seu povo e sua língua para que os novos homens tomassem estes como seus antepassados gloriosos, O rapaz talentoso ouviu tudo com o maior prazer e sinceridade e prometeu, com sua honestidade infinita, que iria contar para estes novos homens tudo o que se passou antes desse castigo de Deus, E, um por um, os navegantes começaram a morrer, e proveram para o último sobrevivente meios para viver ali isolado no grande oceano azul.

A viagem durou mais sete dias e o homem já estava deprimido de tanta solidão passada, e, também, por ver que seus últimos amigos se sacrificaram para levar adiante sua cultura, Depois de ter chorado uma noite inteira, estirado ali na jangada, um barulho veio do horizonte infinito, trazendo algo desconhecido, A Arca estava se aproximando, gigante e imponente diante daquela pequena embarcação flutuando no azul, Esperançoso, o homem dotado se levantou rapidamente e começou a balançar seus braços com toda a força para que Noé o percebesse e o resgatasse dali de seu pesadelo, O rapaz gritou e gritou e pediu encarecidamente que o embarcasse na sua Arca já muito espaçosa, Quando Noé se aproximou e viu surpreso aquele homem pecador pedindo o resgate, não lhe sobrou outra opção, ‘Caro homem pecador’, disse Noé com seu conhecimento da língua do rapaz, ‘Para embarcá-lo é necessário seguir somente um requisito ou enfrentará a ira de Deus, Você deverá esquecer sua língua e a de seus compatriotas, toda a cultura e toda a religião passada deverá ser eliminada de sua mente, Somente assim seu pecado não será passado para os sucessores do novo mundo após este Dilúvio, Se não seguir essas condições, Deus o castigará como castigou todos os seus semelhantes e, então, sua cultura e língua será apagada da mesma maneira, Diga-me, qual será sua decisão?’, O rapaz foi tomado por uma angústia tremenda, pois não lhe restava muita opção: se sobrevivesse, as histórias de seus amigos seriam apagadas e suas mortes teriam sido em vão, se morresse ali pelas mãos de Deus, sua morte também teria apagado todas as maravilhosas histórias que ele ouvira de seus compatriotas pecadores, Algum tempo levou para tomar sua decisão final, Noé, paciente, esperou até ouvir a palavra daquele curioso homem solitário, ‘Pois bem, Noé’, disse o homem talentoso, ‘Esquecerei tudo que carrego de cultura e religião do meu povo passado se me deixar entrar em sua Arca’, Triste por ter tomado esse rumo, mas sabendo que não existia outra opção disponível, o rapaz dotado de grandes talentos entrou na Arca de Noé e se acomodou em um dos aposentos, perdendo toda a memória de sua linhagem ancestral, toda a cultura passada pelos seus amigos na jangada.

 Após alguns dias na embarcação, o rapaz começou a aprender rapidamente a língua particular da família de Noé, comunicando-se com os filhos e as esposas dos filhos com muita facilidade, Assim, se passaram várias horas e dias e semanas entre conversas e vinhos, em risadas e revelações, em olhares apaixonados, deixando Noé observante e um pouco apreensivo, Pois bem, a apreensão se concretizou um mês depois, Um dia, à noite, quando o rapaz estava em um profundo sonho, após ter entrado e consumido no quarto de uma das filhas desse elegido por Deus a paixão natural entre jovens, relembrando de um passado agora misterioso, Noé entrou de surdina no aposento do rapaz e tirou de seu casaco um cajado guiador de ovelhas, Com apenas cinco cajadadas na cabeça, golpeando calmamente seu alvo, o rapaz morreu ali mesmo na cama, sem nem mesmo perceber a presença de seu assassino, Pela manhã, Deus apareceu alarmado diante de Noé e perguntou, ‘Por que, Noé, mataste este rapaz tão talentoso se prometeste que iria salvá-lo após o esquecimento de seu passado?’, Noé respondeu a pergunta de Deus, ‘Porque, Todo Poderoso, sei que lá dentro, em seu mais profundo interior, existia uma semente de pecado, que cedo ou tarde iria transmitir para a minha família o legado que ele jamais pôde esquecer, O que não haveria nenhum problema se ele não aprendesse tão rapidamente minha língua e minha cultura’, – Assim termina essa anedota, ou parábola, como eu já te disse, Sr. Detetive, espero que encontre o verdadeiro assassino e a vítima correta.

Após o último depoimento de Edelson, deixando de lado as contradições habilmente planejadas dentro de seu relato, fui investigar o assassinato para conseguir de alguma forma suprir este vazio que encontrei na fala destes mercadores. Não consegui encontrar nenhum depoimento de Veroni, somente seu corpo estirado ali na tenda do Sr. Ruiz. Sobre o espanhol pouco posso dizer além de sua obsessão em utilizar a roupa de sua mulher falecida, razão essa que sempre me pareceu misteriosa. A versão oficial, ditada pelos âncoras nacionais, dizia que Veroni não foi morto pelo Sr. Ruiz, mas por sua mulher, uma velha preconceituosa que levava dentro de si resquícios de um regime militar, brasileiro e espanhol. Os mercadores de São Paulo não permitiram, por lei judicial, seguir mais profundamente minha investigação e, finalmente, fui dispensado. Algumas semanas depois o caso virou apenas uma anedota lá na delegacia.

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