Monocromaquia (Capítulo 4 de 4)

CAPÍTULO 4: DO JULGAMENTO DOS ADMINISTRADORES


O Estado colocou-se em uma constrangedora situação. Após ter trazido o prisioneiro para a prisão estadual de São Paulo houve uma certa dificuldade em oficializar o julgamento. Abrão, primeiro, foi transportado para uma pequena delegacia local na Zona Sul, e ficou ali, com uma pequena refeição durante três horas. Compartilhou a cela com outros três prisioneiros enquanto os papéis dos relatórios e as testemunhas eram organizados. Alguns policiais estavam em plantão durante esse período que atravessou a noite até atingir o nascimento da madrugada. Algumas testemunhas foram voluntárias para ajudar a justiça pública, e os papéis logo foram finalizados. A autorização foi requisitada pelo delegado da polícia, que ligou imediatamente para o governador alegando urgência. O telefone tocou sete vezes até que a secretária, voz sutil mas séria, respondeu ao pedido do delegado. Este esperara durante um bom tempo o ocupado Governador. Quando foi atendido, a conversa não durou muito. Parecia que o Estado não conseguira manter seu poder sobre o funcionário. A ficha de Abrão, quando chegou para ser assinada, parou no caminho, bloqueada pela burocracia. Alguns funcionários públicos foram verificar o ocorrido e se depararam com uma intervenção um tanto misteriosa

A ficha fora confiscada por uma empresa particular. O assunto foi tratado com o máximo de urgência enquanto a delegacia mantinha com todas as forças Abrão na cela. O governador não conseguiu impedir o confisco da ficha. O assunto se perdeu entre a burocracia estatal e a Empresa ganhou, ultrapassando os olhos da justiça, o direito de julgar Abrão com suas próprias leis, privatizando sua capacidade de sentença. O Estado tentou recorrer ao processo e ao direito de julgar o funcionário, mas na luta da organização, a autoridade inquestionável da Empresa, dona da mão-de-obra do prisioneiro, venceu com louvor. As testemunhas foram compradas por um bom preço para serem transportadas ao escritório.

A posse dos papéis foi a última briga que o Estado comprou. Mas, dentro dos parâmetros da lei, a Empresa ganhou outra vez o processo. O governador estava furioso com a incompetência burocrática que o sistema provocara, mas devido ao grande capital que o escritório possuía, aquela estrutura hierarquia garantia maior importância para outras instituições dentro e fora do país. O silêncio foi um ato sensato por parte do Estado, que logo abriu os arquivos da delegacia para os Administradores. O benefício seria geral, pois a população, pouco preocupada com o funcionamento da justiça, livrava-se desse fardo de bancar monetariamente o julgamento e não precisaria gastar energias para organizar devidamente o tribunal para abarcar um simples e pequeno funcionário. O assassinato do mendigo foi visto mais pelo seu lado estético do que pelo seu lado moral. E todos ficaram contentes por ter ocorrido dessa maneira. Toda aquela confusão da opinião pública, felizmente, foi evitada para dar lugar a um tranquilo e particular julgamento realizado pelos donos de Abrão. Os Administradores bancaram o tribunal e foram os juízes do pequeno assassinato. Segue o relato como se deu o julgamento de Abrão, da chegada até a saída do escritório.

Um homem vestido com um terno escuro chega à delegacia para transportar o funcionário até o escritório, que trabalha durante 10 anos na Avenida Paulista, capital de São Paulo. As algemas são retiradas e o terno do prisioneiro é trocado por um limpo e novo. Os direitos são lidos quando Abrão chega ao carro. Toda uma lista elaborada pela Empresa é citada durante o caminho e são distribuídos copos de água para o passageiro. Dois lanches são permitidos pelo Homem de Terno Escuro. Não ocorreu nenhuma conversa que fosse excêntrica ao julgamento. As calçadas estavam molhadas e iluminavam todos os prédios da Avenida. O dia tardaria para nascer, trazendo para si alguns tendenciosos trabalhadores que eram coagidos a despertar antes do canto do galo. Meu prisioneiro estava concentrado e sério, observando pela janela do carro os postes claros que se repetiam constantemente, mas que eram invisíveis quando o Sol tomava seus lugares. O motorista, sentado ao meu lado, carregava uma alegria que me incomodava um pouco, mas eu tentava quebrar o silêncio incômodo através de assuntos protocolares. Graças às conversas formulares! Abrão, um funcionário tão pequeno, provocou um alarido tão grande. Os trabalhos ficam mais imprecisos nesses casos, e é preciso muito cuidado por parte de nós, funcionários empresariais, para amenizar um atrito entre o público e o privado. Pois todos querem ser juízes. Mas, sejamos sinceros: não é preferível um grande e honrado juiz, especialista e erudito em sua profissão, do que vários juízes, ignorantes nas matérias da justiça? E mais ainda: não é preferível um juiz privado, abastado e contente com os belos soldos e vantagens da Empresa, do que um juiz estatal, preso pela burocracia ideológica de um poder centralizado? Todas essas questões são alheias ao funcionário Abrão, mas ele sabe que, apesar de todo seu afastamento, seu assassinato não deixou de se inserir nessas questões, ainda que excêntricas às preocupações atuais.

O que se passava pela cabeça de Abrão era um mistério para todos os narradores oniscientes. Suas mãos ainda estavam sujas pelo sangue do Mendigo, mas a sua nova roupa disfarçava as consequências do crime, acalmando o público sensível ao imoralismo. Seu olhar não desviava da janela, e só em alguns momentos tomava um pequeno gole de água. O funcionário estava calmo, sem nenhum sinal aparente de nervosismo ou remorso, mas não cedia a nenhum assunto que era proposto pelo Homem de Terno Preto. Havia uma certa tranquilidade no ar, o que deixava a situação ainda mais insuportável. O carro se aproximava do prédio empresarial. E o caminho ficava estreito.

Na entrada, um espirituoso porteiro cumprimentou com um leve aceno Abrão e estranhou seu olhar um pouco distante. Desconfiou que ali havia acontecido algo, pois um aviso estava colado na parede: “Os funcionários não poderão sair do escritório até que estejam autorizados por ordem maior”. O aviso era tosco, feito manualmente, economizando diversos papéis necessários para a vida no edifício administrativo, mas todos obedeciam e até se acostumaram com aquele tipo de estética particular. As relações pareciam ser óbvias, mas o porteiro não entedia muito bem por que ocorreu toda aquela preparação para receber um funcionário qualquer, por que um aviso foi disposto na parede, por que uma parte do orçamento foi separada somente para privatizar um julgamento desse tipo. O porteiro também havia sido demitido, mas honrou a ordem com louvor, exemplificando o ideal cidadão e alegrando, como um filho trabalhador ao pai, os Administradores. Sim, a hora contava com a virtude mesmo após o suicídio do chefe. O elevador chega à superfície.

Abrão foi levado pelo Homem de Terno Preto até a porta do elevador, mas se retirou após ter recebido uma importante ligação, deixando o motorista encarregado de levar o prisioneiro diante do júri. Os dois entraram silenciosamente e uma alucinação momentânea tomou conta do funcionário. Ali eu via o cego olhando para mim tão centrado em sua profecia. Mas não havia futuro em seu discurso, somente presente. Pois como prever um futuro já inevitável? Não, no destino só existe o momento, um único tempo contínuo e eterno que gira em si mesmo, como os cadarços de um tênis. Se houvesse profecia ela seria determinada pela probabilidade e não por um instante já conhecido. A previsão somente existe no caos. Mas, e se no crime a dor orgulhosa e o mal consequente não retira do pastor seu cajado? E se é justamente no crime que o cajado é dado ao pastor? Então, como seria lógico nesse caso, ocorreu uma afirmação do meu trabalho. Sim, houve um crime, percebo isso agora, e ele fazia parte da minha bem sucedida missão. Cumpri minha glória, mas não trouxe o conforto de volta ao lar, mesmo com a satisfação única do assassinato. Não, nunca senti vergonha, tampouco permaneci constrangido: outros motivos me levaram perante o tribunal. Me perguntava no meio desse silêncio diante da porta fechada, atormentado pelo peso enquanto não ocorria o estopim. Quão inverossímil Abrão se sente agora junto com minhas aflições!

Quando o elevador abriu suas portas, o escritório estava todo ali, divido agora em cadeiras, sem as divisões cubiculares, todos os trinta e seis funcionários estavam sentados em silêncio e apreensivos diante do tribunal. Estavam separados: dezoito cadeiras à direita, dezoito cadeiras à esquerda, deixando no centro um corredor para que fosse possível a circulação. Uma extensa bancada foi construída do outro lado da sala e ali acomodaria três pessoas: o juiz, o advogado de acusação e as testemunhas.

Neste momento não havia ninguém ali, mas alguns funcionários já organizavam todos os papéis para o julgamento. Dona Jimena estava sentada ao lado esquerdo, na primeira fileira e, ao seu lado, estava Marcel e Beatriz. Todos estavam cansados, mas alguns alimentos foram oferecidos para que os ânimos fossem agitados. O corpo do chefe desaparecera junto com todos seus pertences. O único que estava tranquilo e até contente pela forma com que tomou o escritório era o mensageiro. Este parecia finalmente pertencer à Empresa e sabia que ali era acolhido, como um paciente num hospital. Após a conclusão daquele estopim, toda vontade parecia estar dominada. As agitações nem sempre possuem uma saída para a mudança.

A madrugada já estava em seu auge. Todos se viraram assustados quando a porta do elevador se abriu. Eu via neles essa mescla entre a surpresa e a conformação. Quão diferente estava meu escritório? No centro não observo meu chefe com seus comandos, tampouco vejo as divisões tão comuns para um dia de trabalho. É possível que essa mudança ocorresse por minha causa? É possível que o sucesso de minha missão tivesse causado toda essa mudança de configuração? Não, prefiro pensar que apenas mantive o escritório funcionando. Seria terrível ser a peça vital para uma revolução. Isso seria uma redução de caráter, um descaso e uma ignorância com o povo. Mas por que me olham desse jeito? O assassinato teria trazido para Abrão algo além de conclusão? Seria eu o infame que tirou as paredes dos cubículos desses dedicados funcionários? Abrão procura sua mulher no meio da multidão e dá um leve sorriso quando a observa de longe. Este pede com voz baixa ao motorista para poder conversar pela última vez com sua esposa antes de começar o julgamento. Abrão recebe uma resposta afirmativa.

Abrão caminha devagar pelo corredor em direção à Jimena. Os olhos acompanham o prisioneiro e o banco do acusado é envernizado prontamente, exalando um cheiro forte pelo escritório. Marcel abaixa o olhar mas não expressa exteriormente nenhum sentimento. O Homem de Terno Preto chega ao andar e caminha até o banco do advogado de acusação, desviando a atenção, por um momento, do público. Jimena se levanta da cadeira com o colar na mão e se dirige ao marido. Abrão percebe que todos os funcionários estão sem seus crachás e sua desconfiança é afirmada. A madrugada é escura e fresca. Uma leve brisa entra pela janela, refrescando os ânimos do público, e a luz, agora com espaços livres, clareia todas as partes do ambiente fechado. É possível observar os olhos cansados mas firmes de todos. Abrão está calado. Dona Jimena, após hesitar por um instante, quebra o silêncio.

Jimena: Demorou a voltar ao lugar onde prometeu que retornaria, mas não retornou de maneira virtuosa. Como nossos caminhos mudaram. E eu estou aqui para lhe oferecer e respeitar cada ação que tomar, cada palavra que disser. O chefe pereceu, assim como nossas funções, e você caiu no meio desse julgamento incompreensível. O que será de nós, meu marido? É possível haver honra no meio de tantas possibilidades de escolha? É possível que nós, vítimas da logística, possamos cair em um determinismo inevitável, em aventuras que servem somente para provar nossa lealdade? Gostaria que minha memória não girasse em si mesma e fosse como as demais, pouco duráveis. Jimena se aproximou hesitante de Abrão; após vencer seu medo o abraçou verdadeiramente.

Abrão: Afastou sua mulher para lhe dizer algo. Sim, mas fique aqui nesse lugar! Você pertence a esse escritório, mesmo que sua função esteja agora indefinida. O chefe deve ter ido embora por algum motivo. Sempre há um motivo, mesmo que justificado! Não se preocupe com a decisão do juiz. Ele está ali para isso, embora lhe falte a virtude. E essa já é uma grande vitória para todos nós. Manteremos uma unidade, ligada à instituição, mesmo sem manter a função. Sim, Jimena, é isso, agora eu vejo! Eu matei aquele Mendigo, matei por vício, matei por um certo entusiasmo momentâneo, mas ele tinha razão. Aquele homem de rua era mais sábio que todos nós. Que importa para nós a mensagem quando é o próprio ato de transmitir que torna o homem nobre e imponente? Jimena, veja! Sim, olhe nos meus olhos de rapina, pois o céu não garante a visita do caçador. E essa é a verdadeira questão: uma sensação de prisão, não uma idealização, mas uma estrutura feita para que o homem, com seu desamarrado sapato, caia em uma sarjeta ambígua. E onde está a ambiguidade agora? Grita Abrão enquanto aperta os braços de sua mulher. Por um lado, a faca apenas livra o Estado de gastos desnecessários; por outro, ela acusa o homem que a usou de maneira tão eficiente. Não é injusto? Não há um ponto de honra na morte? Não seria a função já uma superioridade? Como podemos ser igual a eles? Como a curva não impede que o carro ultrapasse aquele sinal insistente? Os funcionários se assustam e, devagar, vão se aproximando de Abrão. Sim! Eu consegui ouvir as últimas palavras do chefe. É a natureza! Foi exatamente a natureza que fez verdadeira a afirmação de sua morte. Tudo no solo só se assemelha com o natural e nunca com o homem. Como vocês se atrevem a acusar um assassinato causado por um medíocre humano? Culpem minha raiz, culpem minha natureza e todos os meios que ela implica. Jimena começa a chorar e se afasta de seu marido. Senta-se e é confortada por Marcel. Não, não vejo nenhuma ironia aqui! Estou falando como falei anteriormente; mesmo tom, a mesma busca. Pois não entendo como podem apenas ouvir um discurso e separá-lo entre seriedade e jambicidade! Os versos não são hexâmetros! Abrão grita ferozmente enquanto é levado pelos funcionários ao banco do réu.

Abriram espaço para a passagem do prisioneiro. Alguns choros eram escutados, mas os olhares se confundiam entre a indignação, o ódio e o medo. Era difícil dizer exatamente. Abrão olhava para seu público sem processar o que realmente ocorria naquele exato momento. As paredes se abriam em cores invisíveis e voltavam para uma só cor, ou talvez uma não-cor febril. O suor caía mas não purificava o momento. Todos expressavam oralmente suas opiniões na passagem, nas cadeiras, no tribunal. Porém o silêncio foi instantâneo.

A entrada dos Administradores fez com que cada funcionário sentasse nas cadeiras circulares do escritório e o silêncio garantiu a ordem desejada. Não era preciso nenhuma coerção direta, pois o treinamento era eficiente e abrangente. Abrão não virou para trás, tampouco conseguia olhar completamente para as estruturas. O Homem de Terno Preto seguia firmemente os Administradores. O processo começara em plena madrugada, mas algumas luzes não deixavam São Paulo cair em trevas. A selva da cidade me deixava nostálgico ao canto do pássaro cinza, pois ele era tranquilo, relaxado em sua árvore, e dormia sem se comprometer com a necessidade de sono… Quão pequeno sou, quão calado fico diante de minha esposa… Dona Jimena nasceu para a espera…

“Estamos aqui”, disse um dos Administradores, “para realizar o julgamento de um dos nossos funcionários. Abrão, na noite passada, confuso em sua missão, cometeu um ato homicida, matando um homem de rua. Reunimos os funcionários para auxiliar e assistir o processo de alguém que pertence a esse escritório, assim celebrando a vitória dessa empresa na posse do direito máximo de justiça. Trouxemos um advogado contratado especialmente para esse caso inédito”. O administrador aponta para o Homem de Terno Preto; este se senta na cadeira do advogado de acusação. “Mas antes de começar o processo é preciso esclarecer alguns pontos que ficaram suspensos pela noite. Primeiro, o caso do chefe. Aceitamos sua demissão por sua vontade de honrar a Empresa. Sim, ele se demitiu abertamente quando soube que seu andar e seus queridos funcionários iriam perder seus tão antigos postos. Declaramos o chefe como um mártir e nomearemos nossa outra filial com seu nome glorioso. A demissão desse andar se deu por razões lógicas devido à baixa produção. O Estado demandou um maior processo nas organizações de papéis e essa unidade não foi capaz de abastecer a Empresa. Pois o nosso embate contra o governo não se deu somente na posse do julgamento de nosso funcionário, mas também na busca pelo domínio na distribuição de papéis. Alguns foram simbólicos, outros reais. E esse combate tomou suor e um furo no orçamento privado. Mas não se preocupem, pois o aprendizado sem a pretensão de recompensa é a maior das virtudes. Essa é a moral que acreditamos ser a mais vital para vocês, meus queridos funcionários. Vejam esse homem!”, o Administrador aponta para Abrão, “Mesmo um assassino, potencial criminoso, manteve sua visão em prol dessa instituição. Sim, em nosso nome ele está sendo julgado piamente agora”.

“Em nome do chefe…”, começou Abrão, mas foi logo interrompido pelo colérico Administrador. “Cale-se, o réu só poderá se expressar quando lhe for permitido. Vejo que os ânimos estão altos e a ansiedade de justiça agora é geral. Não se preocupem, o julgamento agora se iniciará pela voz do advogado. E esqueçam das últimas palavras do chefe, não há natureza, somente produção.”

O advogado desce de seu pequeno palanque para se dirigir ao público. A gravata é arrumada e os sapatos brilham. O silêncio se mantem e até mesmo Abrão está paralisado pelo suspense que imperava no ar. “Bom dia, Administradores”, disse alegremente o Homem de Terno Preto, “Agradeço por me dar a oportunidade para levar adiante esse julgamento, eu, um humilde advogado. Pois, mesmo não sendo totalmente versado nas matérias da justiça, eu bem conheço uma face do bem, uma face do certo e do equivocado; digo equivocado porque o mal para mim não existe, somente há o erro. A sabedoria eu retiro da experiência, senhores Administradores, e possuo minha vida ao meu favor. Vejo aqui o réu sentado em sua côncava cadeira, sério e paralisado por sua consciência. Por que ele se encontra assim? Por culpa, por sua surpresa ou por uma falta de moral? Os momentos me ensinaram a separar os sentimentos, e, com essa separação, distinguir a proteção e o ataque. Sim, reconheço que o senhor estava apenas realizando sua missão, mas esse objetivo foi alcançado a que custo? Na proteção dos documentos empresariais ou no ataque deliberado contra um simples homem de rua? Ora, não podemos julgar tão facilmente o motivo interno de um homem. Por isso, antes mesmo de assinar a sentença com uma caneta azul, trouxe para esse tribunal uma das testemunhas. É preciso somente uma para firmar uma verdade que levo nessa minha intuição. Por favor, apresente-se ao tribunal a primeira testemunha. Uma mulher que, por curiosidade, observou todo o ato assassino. Entre e fale o que passou pelos seus olhos”.

Testemunha: Bom, estava eu saindo do trabalho, caminhando apressadamente para casa, pois os trens costumam vir lotados e cheios de pessoas nojentas, quando observei de longe um triste homem ajoelhado com papéis brancos a sua frente. Senti compaixão por aquele funcionário e tentei me aproximar para ajudá-lo, pois faz parte do meu caráter a benevolência! Um incômodo geral se espalhou pelo escritório. Mas, assim que eu me aproximei, um mendigo, louco e sujo, corria gritando em direção ao ajoelhado. Eu me afastei imediatamente, com repulsa e medo, e fui buscar abrigo da chuva que chegava com força. Após discussões que agora já não posso recordar, o público ia cada vez mais rodeando os dois combatentes, ignorando a forte tempestade. Para não perder nenhum testemunho, o que agora penso ter sido uma ação realmente nobre da minha parte, cortei o círculo com os braços e me deparei com um grito muito alto deste funcionário. O medo se espalhou e muitos me empurravam para o chão. Sozinha e ferida no joelho, com o rosto na calçada molhada, vi algo horrível! Aquele pobre homem, que despertou a minha mais nobre compaixão, – outro incômodo se deu – havia atacado com uma pequena faca aquele simples e humilde mendigo. Oh, por que este funcionário vil matou sem nenhuma culpa e motivo um mendigo inocente? Senti um choque, como nunca antes, e me levantei da calçada. Quando voltou a minha sã consciência fui trazida para este tribunal. Minha opinião? A morte! A única solução para este criminoso é a morte lenta e severa, a total eliminação da sua crueldade e barbaridade. Sabe o que eu digo? Assassino somente serve para ser assassinado! É isso que esta Empresa deveria fazer! Obrigada. Palmas foram realizadas.

O Homem de Terno Preto se aproxima: “Vejam a cara de um povo que fala a verdade quando lhe sobra a oportunidade. Vocês, brasileiros, não podem negar uma opinião que provém da sua própria região. Não digo para sermos nacionalistas, mas se negarmos a verdade de uma mulher realmente brasileira, para quem devemos enviar nossa fé? Veja, juiz, que mais provas precisamos ter se é o próprio Verbo do povo que reclama a justiça? Sim, a glória surge na expressão e há algo mais expressivo que a indignação perante um assassinato? Creio que o fundamento está bem cimentado e a perícia deixa sua virtude bem humilde. Por favor, caro funcionário Abrão, diga, diga para todos, diga para sua mulher. Deus, cante como foram as conclusões do julgamento deste pobre homem que tão energicamente narrei!”.

Abrão clama: “Se eu sou o verdadeiro culpado, que o céu não tenha pena da minha condenação. Mas não existe razão na minha vergonha? A vontade de cumprir a missão que me foi dada não é maior que os pequenos golpes que proferi? Os olhos são públicos, mas sei que existe ali um sujeito. Esse sujeito é grande! Há glória em seu ser? Meu fardo é digno de compaixão, como espelhos virados para cada funcionário. Sim! Existe glória na minha pública humilhação. O fardo foi maior que toda minha culpa. Não me defendo perante os Administradores, pois só respondo ao meu chefe, aquele em que boa hora nasceu. Deixem-me aqui para construir um lar com minha mulher. Deixem-me aqui para prender os olhos entre cubículos. Deixem-me neste prédio, afastado de toda turba paulistana. Eu prefiro essas paredes, eu prefiro esse local que chamam de prisão. Administradores, deixem-me aqui completo e infeliz com Jimena!”.

Diz o Homem de Terno Preto: “Ah! Mas sim há vergonha na irracionalidade, e sua ação não foi digna de compaixão. Caro Abrão, não há redenção após o assassinato, somente existe neste momento o purgatório. Não vejo como um culpado venha a ser louvado pelo seu vício. Aqui não é possível, Meritíssimo, manter um traidor da boa moral. Veja! Ele admite, ele admite a possibilidade de redenção. Quando há redenção, há culpa, há causa, há uma ação prévia, e, depois, o crime!” A cólera indignada do Homem deixou perplexo grande parte da plateia e até os Administradores foram dominados pelo constrangimento dessa conclusão. Abrão, agora cabisbaixo, não responde as acusações feitas, conformado com o discurso grandioso do advogado. “Me retiro agora, Administradores, e deixo com vocês a palavra final. Mas reflitam bem nas consequências do mantimento de um assassino!” Limpa o suor em pleno nascimento do sol. Sol da manhã entra pela janela.

Houve um silêncio momentâneo por todo o escritório. Jimena, aflita e desesperançosa, esfregava as mãos e buscava seu colar simbólico. A ansiedade tomava conta dos espectadores e somente Abrão parecia aceitar um futuro inevitável. Algumas pessoas se desesperaram por alguns segundos, mas pareciam invisíveis. Eu vi o quão angustiante aquela sala se tornou, em um espírito coletivo em favor ou contra um homem baixo e assassino como eu. Algumas pessoas poderiam morrer sem ao menos serem notadas, e essa ignorância seria, talvez, a melhor das atitudes. É preferível viver sem marcar um mundo a estar ali no pedestal como exemplo. Enquanto alguns dormiam, o julgamento parecia tomar seu rumo final.

Os Administradores, após muitas conversas confidenciais, sentenciaram o réu: “Abrão, caro funcionário, seu chefe agora não está aqui para mostrar sua face. Grande homem ele era para morrer de maneira tão baixa. O julgamento somente pode ser um: o réu é declarado inocente. Sim, suas ações defenderam até o fim a glória da Empresa. Você permanecerá aqui! Você e sua mulher serão os únicos que permanecerão!”. Todos olharam surpresos para os Administradores, alguns se animaram, outros se constrangeram, mas o mais chocado neste momento era o Homem de Terno Preto, que agora já não conseguia nem podia expressar uma única objeção. Estava paralisado pelo desenrolar do julgamento.

Eu estava ali, nos braços de meu marido, olhando para todos os lugares, chorando copiosamente a resolução dos Administradores, com pensamentos confusos que giravam entre as cores monocromáticas do edifício. O outro dia viria, um dia em que Abrão ficaria aqui comigo, todos coletivamente trabalhando para o bem além de uma Empresa, através da humilhação! Sim, mas o sol nos salvaria, sim, a natureza nos salvaria! Viriam aqueles que destruiriam todos os Administradores, todos os chefes, e a justiça não mais saberia o que fazer, chorando nos braços e esfregando a face em suas vítimas. Sim! Acredito que virá o dia em que poderemos sair daqui, sem mais essas estruturas, sem mais papéis em branco, mas palavras maravilhosas, algo a mais! Algo além do que Abrão nunca sonhou! Sim! Terminaremos com a humilhação!

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s