Acabou chorare, alegria e liberdade

E pela lei natural dos encontros, eu deixo e recebo um tanto. Passo aos olhos nus ou vestidos de luneta. Passado. Presente. Participo sendo o Mistério do planeta.

(Novos Baianos)

“Acabou chorare” é a música que deu nome ao segundo álbum dos Novos Baianos, lançado em 1972 pela Som Livre. Ela já carrega em seu título o que reluziria nas demais faixas de uma das obras mais reconhecidas da Música Popular Brasileira. Naqueles anos de chumbo o fim do choro era adiado, mas reavivado através da arte. A banda compôs ritmo, estilo e poesia múltiplos e inovadores, primando pelo trabalho minucioso com a linguagem:

Acabou chorare, ficou tudo lindo

De manhã cedinho,

Tudo cá cá cá, na fé fé fé

No bu bu li li, no bu bu li lindo.

No bu bu bolindo.

No bu bu bolindo.

No bu bu bolindo.

Talvez pelo buraquinho

Invadiu-me a casa

Me acordou na cama

Tomou o meu coração

E sentou na minha mão.

Abelha, abelhinha…

Acabou chorare

Faz zunzum pra eu ver

Faz zunzum pra mim

Abelha, abelhinha

Escondido faz bonito

Faz zunzum e mel

Faz zum zum e mel

Faz zum zum e mel.

Inda de lambuja tem um carneirinho

Presente na boca.

Acordando toda gente

Tão suave mé que suavemente…

Abelha, carneirinho…

Acabou chorare no meio do mundo

Respirei eu fundo

Foi-se tudo pra escanteio.

Vi o sapo na lagoa

Entre nessa que é boa

Fiz zunzum e pronto

Fiz zum zum e pronto.

novos.jpg

A paisagem que constroem é bucólica, como o estilo em que viveram. Ela é desenhada por meio do caminho feito pela abelha, que invade o espaço pelo buraco e ressignifica seu entorno. Isso se dá no trato com as palavras, que igualmente assumem uma diversidade de sentidos. Pela manhã, compartilha-se o “café” e nessa divisão também se separa a palavra, trazendo a “fé” junto consigo. Ele é preparado no “bule” que, por sua vez, tem seu som final estendido, permitindo a retomada do termo que caracteriza o momento – “lindo”.

A abelha vai percorrendo a letra e entoando seu “zumzum”, assim como também vai produzindo seu “mel”. Este carrega no termo o som do carneiro, que “tão suavemente” emite seu “mé”. Junta-se a eles o sapo em sua lagoa, conformando esse ambiente de paz. A criação poética conforma um meio possível de sobreviver. É nesse ponto que os Novos Baianos também são inovadores, pois subvertem a Ordem do seu tempo em busca de alegria e liberdade. Vão além da representação do caos, pois se atentam para o que é aparentemente simples, como a fala de uma criança que ao se comunicar mistura as palavras e diz “Acabou chorare”, fazendo com que, frente à brutalidade, a sutileza resista.


Agradecimentos

A todas e todos que ora ou outra estiveram de olho na Sexta de Discos e dão um pulo por aqui. Um grande abraço e Aquele beijo,

Dan Silva


Faixas

 

Lado A

 

1.”Brasil Pandeiro” (Assis Valente)

2.”Preta Pretinha” (Luiz Galvão / Moraes Moreira)

3.”Tinindo Trincando” (L. Galvão / M. Moreira)

4.”Swing de Campo Grande” (Paulinho Boca de Cantor / L. Galvão / M. Moreira)

5.”Acabou Chorare” (L. Galvão / M. Moreira)

 

Lado B

 

1.”Mistério do Planeta” (L. Galvão / M. Moreira)

2.”A Menina Dança” (L. Galvão / M. Moreira)

3.”Besta é Tu” (L. Galvão / Pepeu Gomes / M. Moreira)

4.”Um Bilhete Pra Didi” (Jorginho Gomes)

5.”Preta Pretinha (reprise)” (L. Galvão / M. Moreira)

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s