Os bem-sucedidos

A figura predominante atualmente, que percorre a mente dos jovens convencidos de que a Universidade é uma fábrica de empregos, é a de um empresário. Iluminados com uma história de sacrifício e muito esforço e suor, o empresário condensa em si duas personagens que se dialogam mas não se fundem: a do trabalhador e a do explorador. Se para o empresário há algo de louvável no que ele faz (e ele deve estar muito convencido disto!), por exemplo, dando emprego para milhares de trabalhadores, por outro lado a exploração que ele realiza ao forçar seus empregados a trabalhar em cargas horárias desumanas, além, claro, da mais valia, mostra como seu discurso, mesmo que contraditório, se sustenta justamente pela ideologia dominante. Quantos estudantes, quantos funcionários, quantas pessoas de todas as classes, de todos os sexos e cores foram atraídas por esta figura carismática que propõe uma engrenagem perfeita na harmônica máquina do capitalismo. Por esta razão que estes mesmos grupos que, apesar de serem explorados, tão ferozmente defendem o empresário em sua posição dominante. O homem se torna poderoso pelas mesmas pessoas que são por ele oprimidas.

A figura da mulher também não se viu livre de tal modelo. Capturando certos conceitos feministas, a ideologia predominante tratou de colocar a mulher empresária como sinal de emancipação do patriarcado: seu esforço através de inúmeros empregos que a exploraram, além de uma competição desenfreada contra seus colegas, finalmente é recompensado pelo posto de gerência que comanda e domina seus empregados. Ora, como não apreciar uma história de alguém que sempre foi explorada pela violência doméstica, baixos salários, além de séculos de exclusão social, e que se tornou a líder de uma empresa que, apesar disto, continua a explorar outras mulheres trabalhadoras? O patriarcado aqui, portanto, não se desfaz, mas se fortalece ainda mais. O discurso atraente, que parte da esquerda parece utilizar com orgulho para definir o poder da mulher, é bem-sucedido se ela seguir os parâmetros estabelecidos pela mentalidade empresarial. Somente o sucesso neste ambiente do mercado tornará a mulher empoderada. Para as derrotadas lhes basta o esquecimento. E, por isso, que o mercado e as empresas adotaram com tanto fervor tal discurso que se assemelha com o feminismo: cria-se uma barreira que nem a esquerda nem a direita ousam analisar com seriedade e honestidade. Resta-lhes a ideologia da aceitação de que nesta sociedade é possível os humildes subirem ao poder. A empresa, enquanto se constituir como parte do discurso social para retratar qualquer tipo de emancipação, será vitoriosa em sua contínua exploração seja do trabalhador, seja da própria mulher, mesmo se esta acreditar-se no topo da pirâmide.

A grande nocividade da mentalidade empresarial talvez não seja a ideia em si, mas em seu uso recorrente no capitalismo financeiro, onde a exploração predomina sobre a produção de algo significativo para a história, onde o lucro sobrepõe qualquer mudança social efetiva. O empreendedor seria a versão livre do funcionário, que o ilude na garantia de que não será ele o explorado, mas sim, o explorador.


Por Raphael Boccardo

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