Monocromaquia (Capítulo 3 de 4)

CAPÍTULO 3: DO INCIDENTE ENVOLVENDO ABRÃO E O MENDIGO


O cego entra:

Canta agora, Musa,

A história d’um homem,

Que por viver sujo,

Cobriu-se de pobreza

Comendo o dinheiro

Divino lá no céu.

 

Enquanto o Mendigo corria atrás de Abrão com uma leve dificuldade, as pessoas na rua olhavam atentamente para as duas pessoas. Abrão estava com os joelhos rasgados e um leve cansaço percorria seu corpo. Os papéis estavam boiando naquela água que girava toda a extensão desta Avenida, espalhados mas interligados pela mesma pureza. O nada ficava, aos poucos, invisível.

“Não, por favor, recolha estes papéis!”, disse o Mendigo enquanto tentava erguer Abrão pela gola, “O que você fez? Não vê a oportunidade que você tinha de se glorificar! A glória é tão efêmera que basta somente uma entrega dessas para viver eternamente. Que me importa, ou que importa a você, se nesses papéis a escrita não nos é visível? Que importa para nós a mensagem, quando é o próprio ato de transmitir que torna o homem nobre e imponente? Um momento, um só instante, Oh! Como eu vejo tantas pessoas com missões nobres e eu, sem nenhum objetivo, me sinto baixo e um pouco inexistente. Agradeça seu chefe por te dar esse objetivo, fazer você se sentir com os pés no chão e até o cansaço no final do dia. Pois não há nada mais baixo para um homem ter um físico debilitado sem ao menos ter tido um longo dia de trabalho. Esse para mim seria um dia ideal. Eu vejo… eu me vejo caminhando por estas calçadas com um par de sapatos brilhantes e uma gravata contrastando com o branco puro da minha camisa. Assim eu teria coragem de erguer a cabeça e me sentir superior a todos os outros. Eu olharia bem nos olhos dos covardes como que dizendo ‘Sim, Sim! Eu consigo deixar brilhantes meus sapatos! E você, que nem ao menos possui um cadarço para amarrar?’. Eu daria uma boa risada, daquelas que dão certos homens após terem se vingado plenamente. Com satisfação eu giraria a fechadura com uma chave que nem eu saberia dizer sua origem. Mas ela seria brilhante e refletiria toda a formalidade da minha vida. Isso que é existência para mim”.

O Mendigo, desistindo de erguer Abrão, cai de joelhos, emocionado por sua reflexão. Algumas pessoas paravam de vez em quando com aquele movimento dissimulador de compaixão. Outras ignoravam os dois homens ajoelhados, carregando rapidamente as suas maletas de volta para casa. O trânsito se engessava, formando diversos raios de luz no miolo da Avenida Paulista. Os olhos de Abrão começavam a arder. Mas não se enganem. Senti um leve conforto quando ouvi as palavras de súplica daquele pobre homem. Nunca alguém havia suplicado para mim. A sensação de estar ali, com os joelhos e os dedos cortados, mas ainda assim se sentir um pouco superior a outro, amenizava o choque daquela situação. O Mendigo era honesto mesmo que um pouco tolo. Só a ideia de desejar estar em minha pele surgia para mim como uma honra sem precedentes. Aquele Mendigo, mesmo sendo o mais baixo dos seres, desejava subir na pirâmide. E eu estava um degrau acima.

Os faróis não mudavam e insistiam no vermelho. Uma pequena multidão, aquelas que alguns chamam de desocupadas, ia se formando ao redor de Abrão e o Mendigo. Os dois se olhavam enquanto estavam caídos de joelhos. Os papéis desciam a Avenida rapidamente, cortando todas as correntezas que surgiam dos bueiros, trazendo de longe mensagens de chuvas constantes. O céu já se cobria de cinza, assim, raptando toda a luz artificial do dia. Os prédios jamais compartilhavam dessa culpa.

Abrão tenta se levantar com os dois braços, mas cai diretamente no Mendigo. Este o afasta com as mãos, enquanto que aquele ganha forças e finalmente se ergue. O Mendigo, irritado pelas risadas da multidão que os cercavam, se levanta rapidamente, tentando se erguer ainda mais que Abrão. A risada aumenta à medida que mais e mais pessoas vão ali observar a disputa. Abrão tenta dar o primeiro passo, mas suas pernas, cansadas e rasgadas, tremem estaticamente em uma mesma base. Seus pés tentam equilibrar aquele corpo débil. Algumas pessoas se sensibilizam com a fraqueza dos dois indivíduos na beira da calçada. O distanciamento é mantido para que não se perca a harmonia das risadas. O Mendigo tenta parar alguns cidadãos, os atacando inutilmente com os punhos. Finalmente os dois conseguem se estabelecer em pé e ficam olhando um para o outro, sem conseguir expressar uma só palavra. A multidão cessa sua histeria coletiva, surpreendida pela seriedade da empresa daqueles pequenos homens. Um baixo funcionário e um pequeno humano atendiam perfeitamente as expectativas catárticas da turba. O mundo ficou suspenso na Avenida Paulista e um silêncio invadiu os faróis. Uma gota surgiu trazendo consigo uma larga tempestade já prevista pelas correntezas. Chuva após sol, forte.

 O suor se misturava com a chuva que caía rapidamente. Alguns já corriam para suas casas como loucos, fugindo daquela corrente que despontava do céu. Mas outros permaneceram firmes ali, sabendo que a situação tomava uma escala inevitável. A barba do Mendigo agora se encharcava e a água penetrava em seus sapatos furados: suas meias já cediam para a correnteza. Abrão retirou seu paletó agora cinza e jogou no meio da Avenida, atrapalhando os carros que por ali passavam. Todos sabiam que os olhares não ficariam ali estáticos e que bastava somente um pequeno estopim para elevar a cena ao épico. A perspectiva se alargava até tocar um limite inalcançável.

Abrão mexe em seu cabelo molhado para se livrar da chuva grossa. Ele está parado, olhando para o Mendigo feito como estátua e um pouco encurvado pelo cansaço. Algumas pessoas estão caladas olhando a cena, enquanto outras conversam sem ser ouvidas. O Mendigo, após a tentativa frustrada de afastar a turba, está ofegante e mal consegue manter-se em pé na calçada. Os dois continuam se olhando. Abrão quebra o silêncio.

Abrão: Por que você não me deixou ali, na beirada da calçada, caído de joelhos? Não percebe que a missão, essa entrega de papéis, constitui um fardo demais para nós dois, homens pequenos? A honra se constrói com a força de vontade, uma virtude além das nossas mediocridades. Você acha que um simples funcionário seria capaz de carregar todo aquele peso? Não, Mendigo. É preciso deixar que eles desapareçam molhados pela água para um dia encontrar seu destino. Nosso destino é perecer, essa é a nossa virtude máxima. Pois você crê que um Mendigo, a escala mais baixa do marginal, conseguiria carregar os papéis em branco? Eles estão ali, veja! Busque-os, mergulhe no rio constante da sarjeta. Mas perceba como a multidão rirá da sua humilhação, como eu sorrirei diante da sua frustração. Veja aquele homem! Abrão aponta para um sujeito na plateia. Seus cabelos morenos estão separados pela chuva; este é o motivo de seu orgulho. Ele parou sua programação fixa para estar aqui, nesta tempestade, nestes suores. Quão tranquilo para mim ele parece, quão feliz ele está por pertencer a um coletivo. Não importa o festival, não importa a cena, mas simplesmente estar aqui é se sentir vivo, sentir-se existente. Seu olhar é de deboche, ele ri dos dois homens pequenos, ri da sua superioridade. Sim! Ele é melhor que qualquer um de nós, caro Mendigo, seu terno é mais honrado, sua vida possui mais amores, mas mesmo assim ele precisa deste instante, desse tribunal coletivo e social para afirmar sua posição. É a renovação do cidadão. O coletivo todo lhe parece mais estável e, ao mesmo tempo, mais inovador em seu grito catártico. Veja todos esses espirituosos cidadãos! Não lhe parece que esses possuem mais glória que nós, meu companheiro Mendigo? Agora eu percebo minha missão, a nossa missão. Somos feitos de sociedade e não de cidadão. Estamos aqui para isso, para deixar os papéis irem com a correnteza da Avenida, para criar essa roda, para ter essa face e essa função, servir como anti-modelos. Sim! Para mim isso constitui orgulho e honra. Esse encerramento dentro do círculo chama a tranquilidade. Era isso que eu precisava alcançar, essa destruição de um horizonte branco. Deixe, Mendigo, deixe os papéis serem sugados pela chuva!

Abrão estava ali, calado, após seu discurso. Seu rosto estava modificado, quase irreconhecível. A plateia olhava hipnotizada para Abrão, assustada com sua demasiada quebra de silêncio. Aquele som, sua fala constante, misturava-se com os grossos pingos de chuva. O círculo girava em si mesmo e a pressão da Avenida se tornou inevitável. O Mendigo estava parado após o discurso e não esboçou nenhuma reação durante um certo tempo. Uma simples gota, ingênua e cega, acordou do estupor aquele homem.

O Mendigo abriu os olhos para Abrão e com um ímpeto impossível para alguém desse caráter, soltou um grito maior que as buzinas do trânsito. A chuva perdeu sua importância. Abrão reagiu rapidamente ao seu temor. O Mendigo correu em direção aos papéis que escapavam rapidamente dos dedos da Avenida Paulista. Correu desequilibrado e de maneira estúpida, esbarrando e tropeçando em tudo que via, quebrando toda aquela multidão imprecisa de São Paulo. Ele estava disposto a segurar aqueles papéis como se sua vida, ou semivida, dependesse dessa única oportunidade. As calças ficavam por um fio, segurando ao máximo aquela posição desengonçada. Os olhos do Mendigo, apesar de sua aparente tolice, eram honestos e verdadeiros. Concentrado em todos os papéis em branco, espalhados por cada canto nas beiradas das calçadas, o Mendigo derrubou algumas pessoas, perseguido por Abrão. Os espectadores se espalhavam: alguns seguiam, outros esperavam o término do incidente.

Correndo pelas calçadas falhadas da Avenida Paulista, Abrão cortava entre as pessoas em um comum momento caótico entre as ruas desta cidade. A cólera, inexistente até então, despertava gradativamente naquele simples funcionário. Seus sapatos se moviam ferozmente. Os pensamentos de Abrão se tornavam fugazes e, incapaz de sentir a chuva que ainda caía forte, parou em frente ao Mendigo, que estava ali, na beira da calçada, recolhendo humilhantemente todos os papéis. O pequeno público parou em harmonia.

Ao Mendigo disse Abrão, com os olhos coléricos e excêntricos:

-Você não entende que nós não podemos ser como eles? Nós pertencemos à terra e aqui devemos ficar! Essa é minha missão, os papéis estão ali, onde já deveriam estar. Você não possui o direito de retorná-los aos prédios desta Avenida. A honra é minha. Veja! Veja como as pessoas olham com compaixão para mim.

O Mendigo responde a invectiva de Abrão:

-Você se considera existente pelo simples fato de vestir essa pequena gravata apertada em seu pescoço. Mas sou eu que estou com os papéis! Eu sou o mensageiro agora! As pessoas sentirão pena de mim. Sim! Não há nada mais atraente do que ver o mais baixo dos seres ser humilhado em sua tentativa de escalada na pirâmide. Com esses papéis, meu pequeno funcionário, com esses papéis sua honra vai se misturar em um misto de relatos confusos e contraditórios. Eles não rirão mais de mim!

Com ímpeto e tempestade, Abrão corou de fúria perante a ousadia daquele homem sem casa. Sua respiração forte se misturou com o suor e a chuva que agora chegava ao limite de suas capacidades. Um grito penetrou nos ouvidos da plateia que agora se afastava atemorizada com a loucura daquele funcionário. A confusão se tornou generalizada. Algumas mulheres choravam enquanto eram carregadas pelo fluxo contínuo da turba assustada. Outros ficaram em prontidão, mas não quiseram interromper os acontecimentos. No descuido momentâneo de um cidadão, sem entender o que ali acontecia, o desastre tomou forma. Em um reflexo natural, o cidadão retirou de seu bolso uma pequena faca que carregava por proteção, e começou a ameaçar todos que se aproximavam. Abrão, sem ver todo o cenário, empurrou o Mendigo na sarjeta, pisando em suas mãos. O Mendigo reagiu: levantando rapidamente de seu estado deplorável, socou quase sem querer o rosto cansado de seu oponente. Este, jogado para trás, caiu em cima do cidadão armado.

A faca estava no chão. Seu brilho e todo seu esplendor, iluminada pelas mais belas luzes da Avenida Paulista, atraiu Abrão. Ele tinha certeza, quase obsessão, que deveria tê-la, que deveria ser seu aquele objeto tão honesto. Esticando seu braço, empunhou com a mão, tranquilo mas, ainda sim, em sua excêntrica cólera, aquela arma no ar. Levantou-se bruscamente derrubando duas crianças. A faca, reta e firme, afastou grande parte do público que ali permanecia fiel ao funcionário.

O Mendigo estava atordoado, segurando alguns papéis em suas mãos. Não sabia qual era o motivo. Sentia uma pequena tristeza por estar ali e assim mesmo não ser admirado por sua fraqueza e por sua incapacidade de se defender. Pressentiu o brilho caminhando por entre a plateia. Abrão esticou seu braço para acertar a barriga do Mendigo. O sangue escorria suavemente pela calçada, pintando finalmente a Avenida. A vida surgia entre a luta. A queda foi lenta e expôs milhares de luzes que variavam de acordo com o reflexo da faca. A barriga estava imóvel, enquanto era esfaqueada sutilmente. Quando o Mendigo finalmente caiu, Abrão retirou a arma. Seus olhos, nus e brilhantes, refletiam toda a correnteza que a avermelhada sarjeta exaltava para a calçada. O Mendigo suplicava por pena ou admiração, mas já todos o ignoravam. Abrão, para impedir a compaixão, derrubou três facadas pelo corpo do Mendigo até sentir seu braço se cansar e, exausto, silenciou aquele pequeno homem.

Os acontecimentos foram confusos, mas poderíamos ver que as autoridades logo agiram. Abrão, ensanguentado e segurando firme a faca, foi preso, logo após a chuva ter terminado. As algemas foram dispostas.

O cego encerra o terceiro ato:

O novo funcionário, Abrão,

Pela manhã fez seus pés caminharem.

Ele seguiu a calçada da Av. Paulista,

Ele voltou ao prédio, a pé e algemado,

E, assim, juntou-se com a Senhora Jimena.

Ele voltou e ficou ali para ser julgado.

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Por Raphael Boccardo

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