Por dentro da Cabeça Dinossauro

“Oncinha pintada, zebrinha listrada, coelhinho peludo: vão se foder! Porque aqui na face da terra só bicho escroto é que vai ter”

(Titãs)

Lançado em 1986, Cabeça Dinossauro é o álbum que consagra os Titãs como uma das grandes bandas do BRock. Seus integrantes reúnem na obra uma revolta explícita, contundente e histórica. Entre eles estava um dos nossos principais poetas contemporâneos, Arnaldo Antunes. Artista que seguiu carreira independente, como outros que saíram dali (cronologicamente): Nando Reis, Charles Gavin e, neste ano, Paulo Miklos. Houve também a perda de Marcelo Fromer devido à sua morte. Outros três nomes que se mantêm na banda atualmente e faziam parte do álbum são Branco Mello, Sérgio Britto e Tony Bellotto. Oito jovens que se reuniram e expressaram através da arte um retrato do Brasil até hoje vigente.

Inverteram a imagem do belo, para desvelar uma sociedade hipócrita. Saíram dos lixos os “Bichos escrotos” e foram trazidos para o centro da canção, na qual se cria a palavra de ordem: “Ratos, entrem nos sapatos do cidadão civilizado”. Vão os bichos tomando conta do homem de bem e se misturando até nele se fundirem. Saem dos seus abrigos sórdidos e se apropriam dos espaços desse cidadão: “Saiam dos esgotos. Venham enfeitar meu lar, meu jantar, meu nobre paladar”. O que é escroto é mobilizado na música e dá nova forma à sociedade, passando a ser representada de modo cru.

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            Para tanto, as instituições são atacadas ao som das guitarras, baixos, baterias e vozes que retratam a “Igreja”, a “Polícia”, o “Estado Violência”, a “Família”. Esta, desenhada com base na tradição: “Filha de família se não casa, papai, mamãe, não dão nem um tostão”. Há um modelo a ser seguido que oprime e segrega quem dele se afasta. Mais recompensador reproduzi-lo e manter a ordem vigente: “O pai vive com medo de ladrão. Botaram cadeado no portão”. Para ele o grande problema é a insegurança, presente mesmo com os portões e cadeados que falsamente protegem a si e aos seus. No seu mundo, abriga-se quem pode. Quem vive à deriva tem como dever se superar e alcançar, com ou sem herança, o seu espaço, afinal, quem tem culpa da sorte de ser bem nascido?: “O choro do neném é estridente, assim não dá pra ver televisão”. De acordo com as notícias, a reprodução é divina e necessária para a formação de um Estado fortalecido. Compõe-se a formação da família brasileira, em sua contínua busca pela vida pequeno-burguesa.

            Ao contrário do que prometem, ela caminha por linhas tortas. Nos falam de progresso, no entanto, voltamos a ser um “Homem Primata”. Quisera fosse pelo instinto que se quer livre, mas é pela selvageria: “Desde os primórdios até hoje em dia o homem ainda faz o que o macaco fazia”. Não há necessariamente uma evolução, pois também seguimos alheios à nossa própria espécie: “O homem criava, mas também destruía: capitalismo selvagem”. Um sistema nos corrói. É escroto por seu modo tão hipócrita de prometer um lugar que poucos alcançarão, e que se o fizerem, seguirão, ainda assim, infelizes. Vêm os Titãs e subvertem a ordem: “A vida é um jogo: cada um por si e deus contra todos”. O individualismo nos impede de ver o outro; a música, então, nos brinda com o fim de tudo isso: “Você vai morrer e não vai pro céu. É bom aprender: a vida é cruel!”.

Por Dan Silva


Faixas

 

Lado A

1.”Cabeça Dinossauro” (Arnaldo Antunes, Branco Mello, Paulo Miklos)

2.”AA UU” (Marcelo Fromer, Sérgio Britto)

3.”Igreja” (Nando Reis)

4.”Polícia” (Tony Bellotto)

5.”Estado Violência” (Charles Gavin)

6.”A Face do Destruidor” (Arnaldo Antunes, Paulo Miklos)

7.”Porrada” (Arnaldo Antunes, Sérgio Britto)

8.”Tô Cansado” (Arnaldo Antunes, Branco Mello)

 

Lado B

9.”Bichos Escrotos” (Arnaldo Antunes, Sérgio Britto, Nando Reis     Paulo Miklos)

10.”Família” (Arnaldo Antunes, Tony Bellotto)

11.”Homem Primata” (Ciro Pessoa, Marcelo Fromer, Nando Reis, Sérgio Britto)

12.”Dívidas” (Arnaldo Antunes, Branco Mello)

13.”O Que” (Arnaldo Antunes)

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2 comentários sobre “Por dentro da Cabeça Dinossauro

  1. ARRASOU, Daniel! vc sabe que adoro te ler, sempre, mas dessa vez, vc conseguiu fazer o texto pulsar mais ainda, com a mesma contundência desse álbum incrível, tomado pela mesma fúria desses Titãs. “Meu ódio é o melhor de mim”, diria Drummond. E continua, “com ele me salvo e dou a poucos uma esperança mínima”. Está aí a nossa, sempre, paradoxal e minimamente renovada. um grande beijo.

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  2. Danzinho… Fiquei “off” dos textos e agora ando colocando tudo “em dia”. Tu não sabe o tamanho da luz que sai dos seus textos e erradia minha cabecinha!! Obrigada por compartilhar esse dom lindo e essa paixão pela música. Titãs é o sumo do rock brasileiro, Cabeça Dinossauro é o rato que entrou no meu sapato de cidadão civilizado e não saiu mais (ainda bem!)…Um beijo com amor

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